15 novembro 2010

Visita à ermida de Dom Bosco (Brasília) - 7 de novembro de 2010




A Ermida de Dom Bosco é uma pequena capela construída em homenagem ao homem que lhe dá nome e que foi beatificado pelo Papa em 1962. Tem a forma de uma pirâmide de base inclinada, é revestida em mármore branco e possui uma cruz metálica no topo. Foi projetada por Oscar Niemeyer e construída sobre uma plataforma de lajes às margens do Lago Paranoá.
Tem uma tipologia moderna, mas é um monumento bem simples, sem muitos ornamentos. Inaugurado em 4 de maio de 1957, o local é o primeiro templo de Brasília e oferece uma vista privilegiada de todo o Plano Piloto, com destaque para o Palácio da Alvorada, o Eixo Monumental e a Esplanada dos Ministérios.
Sua localização não é aleatória. Está no ponto de passagem do paralelo 15º, com o qual Dom Bosco teria sonhado em 1883. No sonho, ele via que entre os paralelos 15º e 20º estaria situada a capital brasileira. Dentro do templo, está a imagem do profeta esculpida em mármore pelos irmãos Arreghini, da Itália, trazida em uma procissão fluvial em 1962.

11 dezembro 2009

O trem das onze e cinquenta e dois

Crônica de Martha Medeiros publicada no jornal "Zero Hora" do dia 9 de dezembro de 2009 (quarta-feira):

Eu já tinha a crônica de hoje pronta. Era sobre o atraso da classe política e sobre a nossa imobilidade diante da corrupção, mas me incomodava a sensação de estar chovendo no molhado. Foi então que li ontem na Zero Hora um depoimento sobre outro tipo de atraso, feito pela torrense Nilda de Jesus Silva, que declarou: “Estranho os jovens se atrasarem para a prova do Enem. Se fosse jogo de futebol, estariam esperando por várias horas, e para shows, vão para as filas dois ou três dias antes, mas quando o assunto é colégio...”. Acabei postando o texto sobre corrupção no meu blog e resolvi dedicar esta coluna à observação perspicaz da Nilda.
Costumo dizer que sou a pessoa mais impontual que conheço: chego sempre 10 minutos antes do horário, e às vezes espero dentro do carro até que os minutos passem, a fim de não ficar sozinha na mesa do restaurante ou mofando na sala de espera. Mas como os manuais de segurança pública não recomendam que se fique dentro de um carro estacionado, acabo exercitando minha paciência em mesas de restaurantes e salas de espera, fazer o quê? Sem falar em quando me esforço em chegar numa festa um pouco depois do que pede o convite, e mesmo assim pego o anfitrião ainda no banho.
Porém, em dia de prova de vestibular, exame para carteira de motorista, cirurgia com hora marcada, audiência com o juiz e reunião secreta para receber propina, atrasos são injustificáveis. Você pode ter dificuldade de ser honesto, mas nada é mais fácil do que ser pontual. A palavra imprevisto não existe para quem tem um compromisso que pode mudar a vida. Telefones tocam quando você está com a chave na porta, o elevador enguiça, o trânsito congestiona. Acontece. Mas isso nunca é problema para quem costuma sair de casa com o mesmo fanatismo de quem deseja assistir à Madonna na fila do gargarejo, ou seja, com antecedência suficiente.
Escrevi a palavra fanatismo e senti um mal-estar: será que virei uma aiatolá do relógio? Não, nem poderia: a cultura local não incentiva o radicalismo quando o assunto é pontualidade. Já estou habituada a esperar pela noiva na igreja, pela decolagem dos voos e pela entrega do marcineiro, sempre com um sorriso no rosto, sem reclamar, sem rogar praga. Aproveito o tempo de espera para sonhar acordada. Abstraio e me visualizo numa estação ferroviária de Paris, com um bilhete na mão para viajar para Amsterdã no trem que sairá às 11h52min. Entro no meu vagão (às 11h42min, lógico), me acomodo no meu assento, pego uma revista e desfruto 10 minutos de uma paz que só a segurança oferece. Minha confiança e meu humor não sofrerão abalos. Então, exatamente às 11h52min, o trem parte e eu confirmo que nada pode ser mais moderno e pró-eficiente do que cumprir o combinado.
Isso também valeria para a classe política, não fosse outro sonho.

07 dezembro 2009

Colégio Sinodal - Matemática é arte em São Leopoldo

Projeto desenvolvido com alunos do 3º ano no Colégio Sinodal facilita entendimento da matériaCom a ajuda de um programa de computador, estudantes do Colégio Sinodal, de São Leopoldo, estão transformando equações matemáticas em arte.
Ao perceber que aquelas retas, curvas e circunferências podem ganhar cor e vida útil, os estudantes se impressionam. Participa quem quer. Porém, mesmo aqueles que preferem ficar longe dos números começam a enxergar a matéria com simpatia.
– Eu não gostava de matemática, mas quando vi o que poderia ser feito comecei a pensar diferente – revela Júlia Lewgoy Martini, 17 anos.
A iniciativa é do professor Marcelio Diogo, que foi apresentado ao software Graphequation nas aulas de mestrado, na UFRGS. O programa de computador tinha uma outra finalidade, mas ele resolveu adequá-lo à sala de aula.
O projeto é baseado na reprodução de imagens. São desenhos, personagens e até obras de arte. Com o auxílio do programa e de fórmulas matemáticas, cada quadro é reconstruído. O estudante tem de calcular uma média de 650 equações. Júlia, por exemplo, levou 30 dias para finalizar o trabalho.
– É um trabalho que exige dedicação. As equações têm de ser descobertas. O mais importante é que os alunos podem perceber que funciona. A dificuldade é justamente aproximar a matemática de algo que seja útil mas, assim que eles enxergam na reprodução de um quadro o conteúdo de sala de aula, se interessam – conta o professor.
As reproduções estão expostas na escola ao lado das figuras originais, aguçando a imaginação de alunos que ainda não participam do projeto.
– Como sou aluna do 2º ano, ainda não entendi o mecanismo, mas achei extraordinário – diz Letícia Rech.
Letícia Barbieri - São Leopoldo

Muitos cálculos para transformar números em figuras
- Todo o trabalho é feito no software Graphequation. Ele apresenta ao estudante um plano cartesiano, com uma reta horizontal, que forma o eixo X, e uma reta vertical, que forma o eixo Y. Para a execução, é utilizada uma escala em centímetros.
- Cada região da figura é determinada a partir de equações e inequações matemáticas trabalhadas em sala de aula. As regiões são formadas por circunferências, retas, elipses e arcos.
- Com uma régua e uma gravura impressa em mãos, o estudante determina os pontos importantes do desenho.
- Depois de medir no papel, digita no computador a fórmula da equação (que forma os traços) e da inequação (que forma uma região), e a figura aparece na tela.
- Para inserir uma circunferência, por exemplo, ele precisa medir o centro e o raio.
- Para inserir uma reta, precisa determinar e calcular a operação a partir de dois pontos.
- Para uma elipse, é preciso verificar o centro e o tamanho dos semieixos.
- Cerca de 600 equações chegam a ser feitas para refazer a gravura original.

14 junho 2009

Reencontro de colegas - Uma amizade sem fim

Achei a reportagem transcria abaixo e penso que ele tem muito a ver conosco!

Reportagem publicada no jornal "Zero Hora" do dia 14 de junho de 2009 (domingo) - páginas 30 e 31:

REENCONTRO DE COLEGAS
Uma amizade sem fim

Em 1977, quando se formaram no Colégio Anchieta, em Porto Alegre, Maria Isabel Santos, 49 anos, e Manoel Inácio Martins, o Maneca, 50 anos, tomaram rumos diferentes. Três décadas depois, em um encontro com os antigos colegas em um café, eles não apenas voltaram a se ver, como também se apaixonaram. Hoje, estão noivos.
Passados tantos anos, o casal ri das coincidências que a vida armou. Por pouco, Isabel e Maneca ainda poderiam estar separados – como acontece com muita gente que, depois da cerimônia de formatura, perde o contato com os colegas.
Os rompimentos, muitas vezes involuntários, podem ser definitivos em alguns casos. Apesar disso, para a psicóloga Myrna Cicely Couto Giron, do Instituto de Terapias Integradas de Porto Alegre, nunca é tarde para a reconstrução de velhos laços de amizade.
– É provável que os ex-colegas que não vemos mais também sintam saudade. Partilhamos com essas pessoas um tempo feliz, por isso é tão importante para muita gente retomar esses vínculos – avalia Myrna.
Isabel e Maneca que o digam. Eles integravam duas das 14 turmas que se formaram em 1977 no Anchieta. Com o certificado de conclusão em mãos, ganharam o mundo. Maneca se tornou agrônomo e acabou na Bahia. Isabel cursou Jornalismo e rodou o Brasil. Somente em agosto passado, no bistrô que ela abriu na Capital com o sugestivo nome de Café 77, a história mudou. Ao cruzar os olhares mais uma vez, eles imediatamente se reconheceram.
– Nos tempos de colégio, eu sempre ficava olhando quando ela ia para casa. Existia uma certa atração, mas nunca aconteceu nada – recorda Maneca.
Não demorou muito para que os dois começassem a namorar. Em janeiro do ano passado, com o apoio dos amigos da época de escola, Isabel e Maneca trocaram alianças de noivado.
– Ainda não marcamos a data do casamento, mas com certeza vamos fazer uma grande festa, com todos os nossos ex-colegas do Anchieta junto – garante Isabel.
O desfecho dessa história de amor digna de cinema é motivo de orgulho entre os anchietanos formados em 1977. Desde que organizaram um baile, em 1997, quando completaram 20 anos da formatura, eles não se distanciaram mais. De lá para cá, criaram um site próprio e comemoraram os 25 e os 30 anos da conclusão do Ensino Médio. Não contentes, estão planejando mais um evento, para julho deste ano, que promete emocionar. A ideia, segundo o empresário Marcos Daudt, 49 anos, é chamar um grupo de ex-professores para ministrar mais uma aula, como nos velhos tempos.
Depois de 25 anos, grupo voltou a se encontrar
Atividades desse tipo, tanto quanto as tradicionais festas de reencontro, são mais do que artifícios para resgatar amizades, na opinião do psiquiatra Alfredo Cataldo Neto, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
– Se ao final da faculdade ou do colégio, as festas são uma maneira de elaborar o luto da separação, os reencontros são uma forma de buscar nos colegas a nossa própria história – explica Neto.
Em novembro passado, ex-colegas da turma de Enfermagem e Obstetrícia formada em 1983 na Universidade de Caxias do Sul (UCS), na Serra, sentiram isso na pele. Depois de 25 anos de afastamento, eles deixaram suas casas, em vários cantos do Estado, e voltaram a se encontrar em um evento com direito a homenagens especiais, presença de antigos mestres e boas-vindas do reitor.
Ao recordar os tempos da faculdade, muitos choraram. Ao final, segundo uma das organizadoras do evento, a professora Nilva Lúcia Rech Stedile, 47 anos, os novos velhos amigos decidiram que não vão se afastar:
– Foi tão bom, que já começamos a pensar na festa dos 30 anos de formatura. Agora que nos encontramos, não queremos mais perder o que recuperamos.

Juntos desde 1970
O dia 4 de dezembro é sagrado para um grupo de médicos gaúchos formados em 1970 na UFRGS. Todos os anos, nessa mesma época, os ex-colegas de turma se reencontram para comemorar a formatura, relembrar antigas histórias e, principalmente, reforçar velhos laços de amizade.
Fazem parte dessa confraria alguns dos nomes mais conhecidos da medicina gaúcha. Desde o início, segundo o cardiologista Fernando Lucchese, 61 anos, a empatia entre eles foi tanta que os jovens aspirantes a doutores não se desgrudaram mais.
– Fazemos questão de nos manter unidos – diz o epidemiologista Jair Ferreira, 61 anos.
Quando o assunto são as festas de reencontro, o líder da turma desde os anos 70 é o cardiologista Sérgio Vasconcellos Dornelles, 64 anos. Segundo os colegas de bisturi, é ele quem puxa a frente na organização dos encontros – que acontecem no mínimo uma vez por ano. Em seu apartamento, Dornelles guarda um livro de presenças, no qual registra as festas da turma, desde o princípio.
– Isso também é história – ensina.
História, aliás, é o que não falta a esses médicos – e elas volta e meia reaparecem nas festas anuais. Certa vez, no início da faculdade, os inseparáveis amigos participaram de um curso de primeiros socorros. Ferreira lembra que, para aprender a aplicar injeções, tiveram de treinar um no outro, enchendo seringas com água destilada.
– A enfermeira mandou um colega aplicar a injeção e aspirar. Em vez de mexer na ampola para ver se tinha ar, ele encheu os pulmões. Todo mundo riu – conta Ferreira, preservando a identidade do fanfarrão.

A prova de anatomia copiada
O epidemiologista Jair Ferreira é quem entrega um dos episódios mais comentados pela turma nos seus reencontros.
Em 1967, os universitários andavam preocupados com uma prova de anatomia patológica e decidiram organizar um plano engenhoso para ter acesso às questões. Sabendo que a secretária do curso saía sempre às 16h para tomar café, um dos alunos pulou a janela da sala da funcionária.
Enquanto isso, outros estudantes ficaram de guarda e um terceiro grupo foi até o balcão do bar para retardar o retorno da mulher.
– Graças a essa ação perfeitamente coordenada, o colega invasor conseguiu copiar 20 das 25 questões da prova e safar-se a tempo. Para admiração dos nossos professores, todos tiraram mais que oito naquela prova. Eu fui um deles – confessa Ferreira.

Lições de Jalaô e Nicodemo
Um outra tradição dos reencontros da turma de 1970 é entoar o hino da faculdade. Inusitada, a letra da canção faz referência a Nicodemo e Jalaô, que seriam dois antigos cadáveres usados nas lições de anatomia.
– Tínhamos muito carinho por eles. Acho que foi ali que aprendemos a respeitar nossos pacientes – relembra o cirurgião José Camargo, 62 anos, diretor médico do Hospital Dom Vicente Scherer.
No que depender de Camargo e dos formandos de 70, Nicodemo e Jalaô jamais serão esquecidos. Em dezembro deste ano, quando a turma completar 39 anos da formatura, os nomes dos dois velhos conhecidos provavelmente serão entoados mais uma vez, em mais um reencontro.

Para matar três décadas de saudade
Como naquelas festinhas de garagem que a turma costumava realizar no final da década de 70, os homens chegam primeiro e ficam encostados no balcão. O som ambiente no restaurante do bairro Moinhos de Vento, na Capital, em nada lembra o das Frenéticas que os embalava na época em que frequentavam o Colégio São Pedro, no bairro Floresta, mas a expectativa é tão grande como era a espera por aquele beijo roubado ao fim da noite.
Trinta anos depois de se formarem no 3º ano do então chamado 2º Grau (hoje Ensino Médio), em 1979, o servidor público Rogério Paranhos, 46 anos, e o mecânico de manutenção Hildor Horwarht, da mesma idade, preparam-se para reencontrar pela primeira vez os colegas da turma 233.
Quando as primeiras colegas aparecem, às 20h, têm dificuldades para reconhecê-las. Elas se esforçam para reconhecer aqueles senhores de cabelos brancos, com barriguinhas salientes. Puxam referências da sala de aula.
– Eu sou aquela quietinha – diz uma delas.
– Eu sou aquela que sentava na parede – ajuda outra.
– Eu era o pegador, o dono da garagem – brinca um terceiro.
Meia hora depois, com a maior parte da turma reunida, parecem íntimos outra vez. Com uma cópia da lista dos colegas da época, o professor de química aposentado Fábio Bohrer, 56 anos, faz a chamada. Dos 38 alunos, 25 estão presentes. Outros, como Aurélio Gimenez, que mora no Rio, mandaram mensagens.
Ao ser chamado, cada um conta em três minutos o que fez nesses 30 anos. Antonio Manfrim, que chegou a ser expulso pelo ex-professor no primeiro dia de aula por estar de empurra-empurra antes de entrar na sala, virou engenheiro eletrônico. Paula Mastroberti, que ganhava concursos literários e adorava desenhar, é escritora e artista plástica.
– Lembro que o professor de português dizia: vocês não passam de moluscos morais, seus burguesinhos bem nutridos. E de certo modo ele tinha razão, éramos muito alienados – diz ela, que como os colegas cresceu sob o cerco da censura e foi conhecer as lutas pela abertura política e a anistia durante a faculdade.
A ideia do encontro foi do advogado e empresário Daniel Casco, 47 anos, que em três décadas sempre manteve a lista de chamada e uma foto da turma em sua agenda.
– Eu aprendi o que era amizade com essa turma – emocionou-se.
O reencontro serviu também para revelar o mais bem guardado segredo da turma. Foi ali que a dona de casa Silvana de Paula Maria da Silva, 48 anos, finalmente descobriu quem foram os cinco sacanas que ergueram seu buggy e o inverteram de posição na garagem da escola.
– Fizemos tudo rapidinho e deitamos o cabelo – confessou o economista Alceu Marques, 47 anos.

Espaço para formaturas e reencontros
A partir desta semana, as cerimônias de formatura e as histórias de reencontro de colegas terão um espaço especial em Zero Hora.
No jornal impresso e na internet, uma coluna e um blog estarão permanentemente abertos aos leitores, para que enviem textos e fotos desses momentos especiais.
O material será publicado todas as quartas-feiras no caderno Vestibular, que passará a circular com uma nova seção, e diariamente no Blog das Formaturas, em www.zerohora.com. Valem desde imagens recentes até fotografias de solenidades ocorridas no passado – tanto na conclusão do Ensino Médio quanto na entrega do diploma de graduação e nas tradicionais festas de reencontro.
Também poderão ser incluídos relatos pessoais e histórias curiosas.
Se você quer dividir a emoção vivida nessas ocasiões, mande o seu recado em um texto de até 20 linhas e uma foto para o endereço: www.zerohora.com/blogdasformaturas.

04 maio 2009

Mentiras consentidas

Crônica de Moacyr Scliar publicada no jornal "Zero Hora" do dia 3 de maio de 2009 (domingo):

Os estrangeiros que vêm ao Brasil frequentemente passam pela experiência. Eles conhecem algum brasileiro, o contato é amável, caloroso mesmo, e em geral termina com a frase: “Aparece lá em casa”. No dia seguinte, lá está o visitante, batendo à porta do potencial anfitrião, para surpresa e constrangimento deste. Porque, claro, o convite não era para valer. Era algo como uma frase que brota automaticamente dos brasileiros, e que os sociólogos e psicólogos enquadram na categoria das chamadas mentiras consentidas. Por que consentidas? Porque são tacitamente aceitas por todos nós, os nativos desse país. E sistematicamente causam surpresa àqueles que vêm de fora.

Mentiras consentidas são comuns entre nós. “Meu Deus, como você está bem!”. Mas a pessoa a quem dirigimos essa frase não está tão bem assim. Padece de alguma doença. Envelheceu. Saiu-se mal numa cirurgia plástica. É isso o que vamos dizer? De maneira alguma. Preferimos o “Meu Deus, como você está bem!” e ficamos em paz conosco mesmos.

Outro exemplo, este do sociólogo Roberto DaMatta: um amigo nosso escreveu um livro. Nós não lemos esse livro, ou então lemos, mas não gostamos. E aí o autor nos pergunta o que achamos de sua obra. Jamais seremos francos. Diremos algo como “É bem bom”, ou: “Funciona”. O que quer dizer isso, “funciona”? Provavelmente nada, mas nos livra de uma situação embaraçosa.

No Exterior é diferente. É famosa a frase do duque de Gloucester para o historiador Edward Gibbon, quando este levou-lhe mais um volume de sua obra Declínio e Queda do Império Romano: “Another damned, thick, square book! Always scribble, scribble! Eh, Mr. Gibbon?” “Outro maldito, grosso, quadrado livro! Sempre escrevinhando, escrevinhando! Não é, Mr. Gibbon?”. Notem que a intenção do duque não era ofender o autor; só dizia o que estava pensando, coisa que para um nobre inglês da época deveria parecer absolutamente normal.

Não, nós não somos o duque de Gloucester. Somos brasileiros, e a ficção sempre fez parte de nossas vidas, até como forma de defesa contra a pobreza, a desigualdade, a injustiça social. Deus é brasileiro? Talvez não seja, mas para um morador de favela essa pode ser a única esperança. É por isso, aliás, que usei a palavra “ficção”, e não “mentira”. A mentira sempre envolve um componente de sacanagem. A ficção, não. A ficção, e todo escritor sabe disso, é uma outra dimensão da verdade, é a verdade como ela deveria ser: toda história, idealmente, termina com um final feliz: “casaram e foram felizes para sempre”. Será que é esta a regra para todos os casamentos?

A mentira consentida também não é a mentira piedosa, que os médicos usavam muito no passado: “Isso não é nada, vai passar”. Muitas vezes não passava, muitas vezes a situação do paciente se agravava. Resultado: nos Estados Unidos, os médicos começaram a ser levados aos tribunais, acusados de ter ocultado (e a razão para isso era secundária) a verdade. Hoje em dia um médico americano não dirá ao paciente que “isso não é nada, vai passar.” Sua resposta será algo como: “Suas chances de recuperação com a cirurgia são de 22,5%, mas há um risco de óbito da ordem de 5,6%. Se usarmos o tratamento clínico, a possibilidade de melhora é de 21,3%, com efeitos colaterais surgindo em 12,3% dos casos”. Muito diferente, portanto, do “aparece lá em casa”.

Ao fim e ao cabo, porém, alguma mentira (os políticos que o digam) é inevitável. Desde que a gente não tenha o nariz do Pinóquio, tudo bem.

07 abril 2009

Baderna cerebral

Crônica de Martha Medeiros publicada no jornal "Zero Hora" do dia 5 de março de 2009 (domingo):

Sobre o que mesmo que eu ia escrever? Vou lembrar, só um pouquinho. Calma... Calminha... Espere um instante...

Lembrei. Quero escrever sobre uma piada que cada dia se propaga mais entre as rodas de amigos. Pessoas trocam as palavras, esquecem nomes, se perdem no meio das frases e, pra se justificar, dizem: é o “alemão” se manifestando. Alemão é o apelido do Alzheimer, e quá quá quá, todos acham a maior graça da brincadeira, mas eu já não estou achando graça nenhuma.

Outro dia assisti na tevê a uma entrevista de um neurologista que dizia, entre outras coisas, que as mulheres têm uma memória melhor do que a dos homens. Estou em apuros. Comentei com uma amiga que está na hora de eu fazer uma vasculhagem cerebral, marcar meia-dúzia de tomografias e enfrentar o diagnóstico, seja ele qual for. Ela comentou que sente vontade de fazer o mesmo, mas que não tem coragem, porque é certo que algum curto-circuito será detectado: não é possível tanto esquecimento, tanto branco, tanto abobamento. Acontece com ela, acontece comigo, e com você aposto que também, ou você não lembra?

Alzheimer é doença séria, mas, que me conste, ainda não virou epidemia. O que vem sucedendo com todas (to-das!) as pessoas com quem converso é, provavelmente, uma reação espontânea a esse ritmo vertinginoso da vida e a esse turbilhão de informações que já não conseguimos processar. É um chute meu, óbvio. Meu diploma é de comunicadora, não de médica. Mas creio que o motivo passa por aí: nosso cérebro está sendo massacrado por uma avalanche de nomes, números, datas, rostos, fatos, cenas, frases, fotos, e isso só pode acabar em pane.

Coisa da idade? Então me explique o fenômeno que relato a seguir. Semana passada, minha filha de 17 anos disse o seguinte: “Ontem a gente vai dormir na casa da Gabriela, mãe”. Ontem vocês irão aonde, minha filha? Ela caiu na gargalhada. “Putz, quis dizer amanhã! Amanhã a gente vai dormir na casa da...”. 17 escassos aninhos e uma overdose de horas de navegação no mundo alucinógeno do MSN, MySpace, YouTube, Orkut e grande elenco. Só pode ser efeito colateral da informática, ou ela também já entrou pra turma das desvairadas?

Pode ser apenas mal de família. É uma hipótese, porém tenho reparado que é mal não só da minha, mas de todas as famílias do planeta Terra. O que é que está me escapando?

Afora muitas palavras difíceis e também as fáceis, muitos verbos complicados e também os de uso contínuo, muitos nomes desconhecidos e também os de parentes em primeiro grau, nomes de cidades distantes e o da cidade em que me encontro agora – Porto o que, mesmo? – o que está me escapando é uma explicação decente.

O que é que está acontecendo com a gente?

20 dezembro 2008

Obituário

Para o pessoal que participou do nosso encontro em Nova Petrópolis, aqui vai uma notícia triste, que apareceu na Zero Hora de hoje, dia 21.12.08, pois trata do falecimento de uma pessoa que nos recebeu muito bem naquela cidade:

O ex-prefeito de Nova Petrópolis Augusto Schranck Júnior, 54 anos, morreu na sexta-feira no Hospital Municipal de Novo Hamburgo. Ele havia sofrido um acidente em 1º de novembro na BR-116, em Dois Irmãos.
Na ocasião, o veículo Celta em que era passageiro capotou. O filho, que o acompanhava, Augusto Neto, sofreu escoriações, mas o ex-prefeito sofreu uma lesão grave na coluna. Foi operado dias após o acidente e permaneceu hospitalizado desde então em Novo Hamburgo.
O corpo seria velado a partir do meio-dia de sábado na Capela Evangélica em Nova Petrópolis. O sepultamento estava marcado para as 17h no cemitério Evangélico de linha Marcondes, no interior de Gramado, mesmo local onde estão enterrados seus pais.
Schranck foi prefeito de Nova Petrópolis por dois mandatos: de 1989 a 1992 e de 2001 a 2004. Antes disso, havia sido chefe de gabinete do prefeito Evaldo Michaelsen (1979-1982) e viceprefeito de 1983 a 1988. Eleito pelo PP, Schranck se destacou à frente da prefeitura pelas grandes obras. Segundo o amigo Harson Braun, presidente do PDT em Nova Petrópolis, foi Schranck quem angariou recursos para a construção do Parque do Imigrante e da Torre na entrada do município, hoje importantes pontos turísticos. Para manter as características da imigração alemã, aprovou a lei que determina que novas construções sejam erguidas no estilo enxaimel e não ultrapassem quatro andares. No seu último mandato, no entanto, foi alvo das atenções na Câmara de Vereadores, que investigou denúncias de irregularidades na gestão pública. O parecer de uma Comissão Processante (CP) apontou a cassação do prefeito, mas ele foi absolvido com o apoio de quatro vereadores.
– Ele era um político fantástico e um amigo muito querido – emociona- se Braun.
Desde que entregou o mandato, em janeiro de 2005, Schranck se mudou para a cidade de Pedras Altas, na Região Sul. Ele vivia com Lídia Assis Brasil, no castelo de Pedras Altas. No último ano, estava contente por ter conseguido aprovar um projeto para restaurar o castelo. Em novembro, quando sofreu o acidente, visitava os filhos Augusto e Vivian, que vivem em Dois Irmãos com sua primeira mulher, Ione.

01 dezembro 2008

Batata frita no tanque

Reportagem sobre dois alunos do Colégio Sinodal que saiu publicada no caderno "Globaltech" do jornal "Zero Hora" do dia 1º.12.08.



Os estudantes Diego Deferrari e Thomas Andres Troian, ambos de 17 anos, do 3º ano do Ensino Médio do Colégio Sinodal, de São Leopoldo, descobriram que ciência se faz com muito trabalho, pesquisa, erros, acertos, longas horas no laboratório e, às vezes, a ajuda do acaso. A idéia do projeto da dupla, iniciado no segundo semestre do ano passado nas aulas de química da professora Vera Lucia Dallacorte, era provar que é possível, e talvez comercialmente viável, transformar óleo de cozinha usado em biodiesel para motores automotivos.
Conseguiram e foram além. Descobriram, acidentalmente, um jeito eficiente de retirar do biodiesel os resíduos das substâncias utilizadas na sua produção.
O trabalho Análise da Possibilidade de Produção de um Éster Metílico Através do Óleo de Cozinha Reutilizado foi um dos três selecionados pelo concurso cultural Laboratório Globaltech, de ZH, e será publicado nesta edição.
“Comecei o projeto”, escreveu Thomas no dia 26 de julho de 2007 no grosso caderno com a inscrição biodiesel na capa preta em que ele e Diego anotariam, nos meses seguintes, todos os passos do trabalho. Um trabalho que não valia nota, não fora pedido pela professora Vera nem nada. A motivação dos estudantes naquele momento era científica e ecológica.
Estima-se que, anualmente, 30 mil toneladas de óleo de cozinha sobram nas frigideiras das cozinhas brasileiras. A maior parte dessa fritura é simplesmente descartada no ambiente, com sérias conseqüências.
– O cálculo é que um litro de óleo de cozinha jogado na natureza polui cerca de 1 milhão de litros de água – diz Thomas.
Uma parcela do óleo de cozinha usado é transformada em glicerina (um produto de valor comercial, que serve de matéria-prima para a fabricação de coisas como sabão e sabonete). Mas esse reaproveitamento não resolve o problema da poluição, já que esses derivados não são biodegradáveis. Uma destinação mais inteligente seria transformá-lo em biodiesel, o combustível feito a partir de óleos vegetais.
Segundo os estudantes, o biodiesel reduz em 78%, em relação ao diesel comum, as emissões de dióxido de carbono (CO2), o principal responsável pelo efeito estufa. Também é livre de elementos como enxofre e aromáticos como o benzeno, igualmente poluidores.
O biodiesel é obtido a partir de plantas como mamona, dendê, milho, girassol, amendoim e soja, que também são usadas como óleos comestíveis. Mesmo depois de usado para fritar batatas, o óleo vegetal mantém o seu poder energético e pode movimentar motores a diesel.
A produção de biodiesel no país deve crescer nos próximos anos, para atender à legislação brasileira. Atualmente, a lei determina a adição de 2% de biodiesel (conhecido como B2) ao diesel comum, derivado do petróleo – índice que subirá para 3% em 2009 e deverá chegar a 8% em 2013. Isso pode acirrar uma competição por esses produtos.
– O reaproveitamento do óleo de cozinha usado evitaria que essas plantas deixassem de ser usadas como alimento – diz Thomas.
E há ainda o benefício do baixo custo, já que o óleo de fritura usado pode ser conseguido de graça em lanchonetes, restaurantes e residências.

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A pesquisa
Para produzir biodiesel, Diego e Thomas utilizaram um procedimento chamado transesterificação. Consiste em uma reação química de óleos vegetais ou gorduras animais com um álcool (etanol ou metanol), estimulada por um catalisador. Basicamente, é o processo usado para extrair glicerina do óleo e fazer sabão.
O primeiro passo foi coletar o óleo de cozinha nas vizinhanças do Colégio Sinodal, no Morro do Espelho, em São Leopoldo. Depois de ser filtrado por um processo de sifonação (veja abaixo o passo a passo da pesquisa), os estudantes adicionaram 25 mililitros (ml) de metanol (o álcool, escolhido por ser mais reativo) e meia grama de hidróxido de sódio (catalisador) para cada 100 ml de óleo.
Dissolvida manualmente numa capela de exaustão (o metanol é muito tóxico e não pode ser manuseado em ambiente aberto), a solução se misturou formando o metóxido de sódio. Em seguida, foi aquecida a 50°C entre uma hora e meia e duas horas, e após deixada em repouso por quatro horas.
No final, 15% da solução se decantara e se acumulara no fundo, formando um produto de cor amarronzada: o glicerol. Acima dele, os 85% restantes tinham virado um líquido amarelado: o biodiesel.

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A descoberta
Antes de ser colocado no tanque de um veículo o biodiesel precisa ser “lavado”. Nesse procedimento, devem ser retiradas as impurezas resultantes do processo de produção: o catalisador, o excesso do álcool, a glicerina residual e outras substâncias corrosivas para o motor.
Foi nessa etapa da pesquisa que se deu o grande achado de Diego e Thiago. E quando, após um longo e penoso caminho de tentativas e erros, a sorte jogou a favor da dupla.
– Foi o ponto alto do nosso trabalho – diz Diego.
Os métodos mais comuns de limpeza do biodiesel são a decantação (esperar que as impurezas se acumulem no fundo de um recipiente) e a lavagem, feita por métodos como a agitação magnética, o borbulhamento com gás ou a borrifação, que projeta uma fina névoa de água sobre o óleo, solubilizando os resíduos e depositando-os no fundo do recipiente.
Diego e Thomas gastaram muitas tardes de sexta-feira (único período em que podiam usar o laboratório de química da escola para sua pesquisa extracurricular) tentando encontrar uma solução eficiente para lavar o óleo.
– Um dos problemas de fazer pesquisa no Brasil é que não se tem muito material. São poucos livros – observa Thomas.
O jeito foi recorrer à internet e ao velho método de tentativa e erro. Até que em certo dia, muito ocupados, os estudantes esqueceram um tubo de erlenmeyer (um dos recipientes usados nos laboratórios de química) sobre um forno de aquecimento. Dentro, havia uma solução com biodiesel e água. Quando notaram o tubo no fogo, perceberam que a água, antes clara e limpa, tinha ficado turva.
– O que aconteceu foi que a água, que estava no fundo do tubo, ferveu e formou bolhas. Essas bolhas começaram a subir e a descer, entrando e saindo do óleo que estava acima. Como a água é um polarizador, ela agiu como um ímã, atraindo as impurezas e lavando o biodiesel – explica Diego.
Apesar do sucesso da experiência, mostrada na Feira de Tecnologia, Ciência e Artes de Santa Maria e na Mostratec, em Novo Hamburgo, Diego e Thomas são céticos quanto ao aproveitamento de óleo de cozinha como uma alternativa imediata. “Temos dúvidas se isso poderia ser implantado em nosso meio, de uma maneira que a sociedade aceitasse e, ao mesmo tempo, contribuísse”, escreveram na conclusão do trabalho. Mas também apontaram um caminho: o poder do conhecimento que pode ser adquirido por “dois jovens com um pouco de pesquisa e um local apropriado”.

26 outubro 2008

Encontro de 2008 - I

A seguir estão apresentadas as fotos tiradas no sábado, dia 25 de outubro de 2008, no almoço de confraternização realizado em São Leopoldo. Muito embora tivesse chovido muito durante a noite e continuasse chovendo durante o dia, conseguimos reunir 12 ex-colegas. Nas fotos de grupo só estão faltando o André Matzembacher e o Flávio Becker, que tinham compromissos e tiveram que sair antes!
Para que todos possam se programar para o ano que vem, combinamos em marcar a data do próximo encontro: dia 24 de outubro de 2009 (quarto sábado do mês de outubro). Quero lembrar que em 2010 estaremos completando 35 anos de formatura e seria legal se conseguirmos arregimentar mais pessoas!

 
Roberto Petroll
 
Maria Adelaide Tesche e filha
 
Simone-Merengue
Tesche

Encontro de 2008 - II

 
Tesche-Flávio Becker
 
Anelise-Simone
 
Helena-Rodrigo
Tachinha

Encontro de 2008 - III

 

Roberto Petroll-Helena-Carlos Ristow-Tesche-Simone-Anelise-Liane
Merengue
Cebolinha-Tachinha
 

Roberto Petroll-Helena-Carlos Ristow-Tesche-Simone-Anelise-Liane
Merengue
Cebolinha-Tachinha
 

Cebolinha-Anelise-Ristow-Liane-Simone-Petroll-Helena
Tachinha-Tesche-Merengue

Ristow e esposa Sílvia

24 outubro 2008

Memórias do tempo do admissão

Jornal Zero Hora - 24 de outubro de 2008 - N° 15768

Memórias do tempo do admissão

Carlos Urbim e Zoravia Bettiol autografam hoje o livro “Admissão ao Ginásio”
No primeiro dia de aula da 5ª série, a professora tira da pasta Admissão ao Ginásio e avisa aos alunos que, até dezembro, eles vão ter de saber de cor e salteada cada linha do livro. Pânico, tremedeira, pressão. O ano era 1959, e as crianças, com idades entre 10 e 12 anos, precisavam estudar o volume para passar nos exames orais e escritos a que eram submetidos aqueles que entrariam no ginásio. Todas as escolas públicas e privadas aplicaram os testes durante 40 anos – entre 1931 e 1971.

A angústia foi transformada em livro pelo jornalista e escritor Carlos Urbim. Admissão ao Ginásio (Escritos, R$ 40), com ilustrações da artista plástica Zoravia Bettiol, terá sessão de autógrafos hoje, às 18h, na Palavraria (Vasco da Gama, 165).

Em 88 páginas, o autor relata os calafrios vividos pelo protagonista Carlos e sua turma de colégio no final da década de 1950. No rádio, se ouviam bossa nova, marchinhas de Carnaval e notícias sobre a Revolução Cubana e a construção de Brasília. O Brasil ainda entoava “A Taça do Mundo é nossa, com os brasileiros não há quem possa”, em comemoração ao primeiro título mundial conquistado pela Seleção, em 1958. A revista O Cruzeiro estampava capas de misses, da corrida espacial e do programa para desenvolver o país, de JK. Nesse turbilhão, o protagonista tentava se concentrar para aprender notações léxicas, tempos verbais, operações matemáticas e movimentos da Terra.

– Uma das minhas intenções é mostrar aos jovens do que eles se livraram. O exame não deixava de ser um vestibular, só que se colocava a responsabilidade em crianças de 10, 11 anos – afirma Urbim. – A pior coisa para qualquer um era ter de repetir a 5ª série.

Um dos mais importantes autores infanto-juvenis do Estado, Urbim, 60 anos, já pensava em escrever sobre o assunto desde que publicou Goma Arábica, em 2004. Para dar exemplos das perguntas e dos conteúdos que caíam nas provas, ele foi atrás do Admissão ao Ginásio original, o livro utilizado por todos os alunos na época. Encontrou um exemplar em um sebo de Belo Horizonte e o usou como referência. O autor contou com o trabalho da artista plástica Zoravia Bettiol para ilustrar o texto. Fotos marcantes da época receberam lápis de cor, e alguns desenhos de Carlos e família tiveram colagens aplicadas.

– A história me arrastou porque tem muita ternura e delicadeza. Procurei desenvolver um universo bem lúdico. Fiz intervenções nas fotos, mas sem esquecer de manter a unidade com os desenhos – diz Zoravia, lembrando que quando fez o seu exame não o achou tão apavorante como o personagem Carlos.

Além da sessão de autógrafos de hoje, a dupla assina os exemplares de Admissão ao Ginásio na Feira do Livro, no dia 3 de novembro, às 17h, no Cais do Porto. No evento, Urbim também lançará Na Noite Estrelada (Edelbra), dia 2, às 15h30min, na Praça da Alfândega.

18 setembro 2008

O puxão de orelha do ladrão

Notícia publicada no jornal "Zero Hora" do dia 18 de setembro de 2008 (pág. 40):

Ao encontrar uma criança de cinco anos dormindo no banco de trás do automóvel que acabara de furtar homem liga para a polícia para repreender pais
– Seguinte, eu vou ser bem sincero pra ti, tá? Eu roubei um carro ali, tá, agora – diz um ladrão para um PM, ao telefone. – E eu peguei o carro e tinha uma criança dentro, cara, e eu não vi. A atitude do criminoso deixou sem reação o interlocutor de farda que atendeu ao 190, em Passo Fundo, no norte do Estado, na madrugada de quarta-feira. O ladrão informava ter deixado para trás um Monza recém-furtado, depois de ter percebido que uma menino de cinco anos dormia no banco traseiro. Em seguida, pede ao policial que mande uma viatura para pegar a criança e tece reprimendas à atitude dos pais.
O caso gerou um burburinho na cidade: todos especulam para saber quem é o homem que desistiu de levar o Monza para preservar a criança. A delegada da 2ª Delegacia de Polícia, Cláudia Crusius, que investiga o caso, diz que ainda não tem suspeitos. Entretanto, já adianta sua provável atitude caso identifique o autor do furto:
– Se eu descobrir quem é, não vou pedir prisão. Assim como ele agiu de bom senso com a criança, eu também vou agir de bom senso com ele.
O episódio também gerou outro inquérito, na Delegacia de Proteção à Criança e Adolescente, para apurar a responsabilidade do casal que deixou o menino no carro, estacionado em frente a um bar, no centro da cidade. De acordo com o delegado Mário Pezzi, os pais podem ser indiciados por abandono de incapaz. Nos próximos dias, ele deve ouvir outras testemunhas do caso. A mãe da criança e o padrasto foram ouvidos no Conselho Tutelar no início da tarde.

Padrasto disse que estava envergonhado e arrependido
O casal disse que havia parado no bar, localizado na Avenida Brasil, a principal de Passo Fundo, às 2h de ontem, para entregar panfletos de um candidato a vereador para alguns amigos. Segundo o padrasto, eles teriam deixado o menino dentro do carro porque ele dormia e não havia motivo para acordá-lo, já que passariam apenas alguns minutos no local. Entretanto, minutos depois, um ladrão furtou o Monza e rodou por cerca de 500 metros, até estacionar na Rua Sete de Agosto, também no Centro, em uma zona menos movimentada, quando notou a presença do menino.
A mãe não quis comentar o ocorrido, mas o padrasto se disse envergonhado e arrependido.
– A gente deixou as portas destravadas e o vidro com uma fresta para que o menino ficasse bem. Se ele acordasse também poderia sair. Foi uma vacilada – admite o padrasto.
Depois de estacionar, o ladrão abandonou o veículo e caminhou até um telefone público. Ele ligou para o 190 da Brigada Militar, avisou a polícia e disse onde havia furtado veículo e onde o havia abandonado.
– Criança não pode ficar sozinha nunca – disse Tereza Cappellesso, conselheira tutelar-substituta, que atendeu à ocorrência na madrugada.
Com a indicação do criminoso, policiais da Brigada Militar foram até o local e encontraram o Monza. Eles acordaram o garoto e se dirigiram até o bar onde estavam a mãe e o padrasto da criança. Todos foram levados até a delegacia. A conselheira disse que o menino estava bem vestido e não estava assustado. A família prometeu dar atenção máxima ao garoto depois do susto.

Saiba mais
Segundo a promotora da Infância e Juventude Ana Cristina Ferrarezi Cirne, para definir penalidades aos responsáveis por crianças abandonadas, é preciso saber se a atitude é única ou não. No caso de haver registro de ocorrências constantes, como maus-tratos, os responsáveis podem ter suspenso o poder familiar. Em caso de abandono material, a pena pode ser de prisão. Se o responsável descumpre o dever que tem em relação à criança, ele pode ter de pagar multa de três a 20 salários mínimos.

A conversa com a polícia
Brigada Militar – Brigada Militar, emergência.
Ladrão – Ô, boa noite, quem fala?
BM – Quem tá falando?
Ladrão – Oi, meu amigo, seguinte, ó. Esse bar aí do lado do Natus, sabe, o Natus na Avenida Brasil? Seguinte, eu vou ser bem sincero pra ti, tá? Eu roubei um carro ali, tá, agora. E eu peguei o carro e tinha uma criança dentro, cara, e eu não vi, entendeu, não vi. Então o que que eu fiz, eu peguei o carro e botei o carro atrás do Fagundes (o Colégio Estadual Joaquim Fagundes dos Reis, próximo ao local onde o carro foi deixado), tá? Então tu manda uma viatura lá e manda o f... (diz um palavrão) do pai dele pegar ele e levar pra casa, um piazinho, tá.
BM – Tá ok.
Ladrão – Tá. Valeu.
BM – Onde que tá o carro?
Ladrão – Tá bem na esquina do Enav (a Escola Estadual Nicolau de Araújo Vergueiro, próximo ao local), ali do postinho. Do postinho do Fagundes, entre o Fagundes e o Enav, ali. O Fagundes e o ..., atrás ali do Fagundes, ali. (não inteligível)
BM – Atrás do Fagundes? Tá ok. Que carro é?
Ladrão – É um Monza, tem um piazinho dormindo no banco de trás, tá. E diz pro f... (palavrão) do pai dele, a próxima vez que eu pegar aquele auto e tiver o piá lá, eu vou matar ele.
BM – Tá ok.

14 setembro 2008

Novo encontro no dia 25 de outubro de 2008.

Pessoal:
Quero convidar a todos para um novo almoço de confraternização em São Leopoldo, no dia 25 de outubro de 2008 (sábado). O local será novamente o São Leopoldo Tênis Clube, por todas aquelas razões pelas quais alguns de nós já se reuniram lá (localização, estando próximo do Colégio Sinodal, bastante lugar para sentar e conversar, não há necessidade de fazer reserva com muita antecedência, preço, etc.).
Como eu falei, o local é simples, sem luxos, mas tem um salão grande onde será servido o almoço. O endereço é o seguinte: Rua Pres. João Goulart, 1080 – Bairro Morro do Espelho. O nome do ecônomo é Pedro e os telefones para contato são: (51) 3592-2212 e (51) 9978-6481.
Em anexo estou enviando um mapa que mostra o Morro do Espelho para facilitar a movimentação. Os setores a serem considerados são o N9 e O9. Lembro que agora o endereço do Sinodal é Av. Dr. Mário Sperb, 874, que corresponde à entrada que fica na parte de trás do Colégio, perto do antigo refeitório. Assim, para chegar lá vocês tem que entrar em São Leopoldo, passar o Rossi e a entrada antiga da lomba (que hoje serve apenas a Faculdade de Teologia), dobrar à direita, na Av. Wilhelm Rotermund e seguir por ela até a Pres. João Goulart, descendo então para o lado direito. O Clube fica na descida mesmo, do lado direito da rua. Acho que não tem erro!!
Aqueles que tiverem pouco tempo e não quiserem almoçar, podem dar uma chegada para ver os amigos!
Para facilitar o contato os meus telefones são os seguintes:
a) celular: (51) 84059352; e
b) serviço: (51) 3215-7292 (entre 8h e 17h).

05 setembro 2008

Charge

Atravessando fronteiras

Crônica escrita por Martha Medeiros e publicada no jornal "Zero Hora" do dia 3 de setembro de 2008.

Anos atrás, quando eu malhava em academia, sempre cruzava com uma fotógrafa que eu conhecia de vista. Eu dizia oi, ela dizia oi. Depois parei de freqüentar a academia e comecei a caminhar no parque. De vez em quando, ela caminha por ali também. Quando a gente se cruza, ela diz oi, eu respondo oi. Essa emocionante troca de ois constitui toda a nossa “relação”.

No entanto, temos uma querida amiga em comum. Contei para essa amiga que eu estava indo para Londres. Tiraria uma semana de férias, sozinha. Essa minha amiga então me disse: “Você vai estar lá no mesmo período que a Eneida, a fotógrafa. Quer o e-mail dela?”

Encurtando a história: escrevi para a Eneida, que já se encontrava em Londres. “Você vem para cá? Ótimo! Vamos jantar juntas? Combinado”. Trocamos endereços, telefones e afeto. E isso tudo me fez pensar no seguinte: nós duas moramos na mesma cidade e possivelmente no mesmo bairro, dada a relativa freqüência com que nos cruzamos. E, no entanto, nenhuma das duas jamais pensou em convidar a outra para jantar, por uma razão muito simples e compreensível: somos duas estranhas. Ela tem a vida dela, eu tenho a minha. Ela tem uma agenda apertada, eu tenho a minha. Ninguém convida para jantar alguém que só conhece de vista, a não ser que seja cantada, o que não é o nosso caso.

O nosso caso é outro: somos um exemplo de como uma cidade estrangeira pode anular cerimônias e estranhamentos. Na cidade da gente, nos agarramos aos nossos hábitos e aos nossos vínculos. Estando fora, viramos uns desgarrados e, naturalmente, nos abrimos para conhecer novas culturas, novos costumes e novas pessoas, mesmo pessoas que já poderíamos ter conhecido há mais tempo – mas que não víamos necessidade.

Viajando, ficamos mais propícios ao risco e à experimentação. Encaramos bacon no café da manhã, passeamos na chuva, vamos ao súper de bicicleta, dormimos na grama, comemos carne de cobra, dirigimos do lado direito do carro, usamos banheiro público, fazemos confidências a quem nunca vimos antes. O passaporte nos libera não só para a entrada em outro país, como também para a entrada em outro estilo de vida, muito mais solto do que quando estamos em casa, na nossa rotina repetitiva.

No momento em que você lê essa crônica, estou dentro do Eurotunnel, ou seja, no trem que percorre o Canal da Mancha. É, embaixo d’água. Saí de Londres e estou indo para Paris, de onde embarcarei de volta para o Brasil no próximo final de semana. A esta altura, já jantei com a Eneida. Já nos tornamos amigas de infância ou cada uma decidiu trocar de parque nas próximas caminhadas. O que importa é que atravessamos a barreira do oi, esse cumprimento protocolar que tão raramente progride para uma proximidade de fato. Eu teria uma dúzia de razões para explicar por que gosto tanto de viajar, mas por hoje fico apenas com esta: pela alegria de viver e pela falta de frescura.

22 julho 2008

Datilografia

Esta crônica, escrita por Kledir Ramil e publicada no jornal "Zero Hora" do dia 21 de julho de 2008, me lembrou quando fiz um curso de datilografia em São Leopodo, nos idos de 1972. Recordo que era tempo de eleição e que eu via a propaganda política, que passava na televisão, por volta de 13h, através da janela do curso!

Não sei se você já viu uma máquina de escrever. Já expliquei em outra oportunidade, mas vou repetir. É, tipo assim, um equipamento mecânico que se usava na antigüidade para escrever palavras. O princípio era o mesmo dos computadores de hoje, um teclado onde a cada tecla corresponde uma letra do alfabeto. A diferença é que, em vez de o texto surgir como mágica na tela LCD, na máquina era possível ver e entender o funcionamento. Cada tecla impulsionava uma alavanca, que movia um braço de metal, que empurrava uma pequena letrinha de ferro, em alto relevo, na direção de uma fita de tinta preta. Algumas mais sofisticadas vinham com uma opção de cor vermelha. Por trás dessa fita, era colocada uma folha de papel em branco, sobre a qual iam sendo impressas as palavras, letra por letra. Simples.

Caso você cometesse um erro, tinha que começar tudo de novo. Não havia "delete". Mas tudo bem, naquela época as pessoas tinham tempo de sobra.

Para conseguir operar tal equipamento, era preciso dominar a datilografia. Datilografia era a arte - ou seria a ciência? - de bem escrever à máquina. Eu fui iniciado na velha Underwood do meu pai, através de um método empírico conhecido pelo nome de "catar milho", que utilizava apenas os dois dedos indicadores. Ou "fura-bolos", se você preferir. Aos poucos minha técnica foi evoluindo e acrescentei ao processo o "seu vizinho", o "pai de todos" e, eventualmente, o "mata piolho". Desenvolvi uma performance razoável, mas nunca chegarei à destreza de alguém que tenha feito curso de datilografia, que, acredite se quiser, é capaz de escrever 300 caracteres por minuto, usando os dez dedos das mãos. Sem olhar o teclado.

Naquele tempo, para ser uma boa secretária era preciso saber datilografia, além de inglês, francês, espanhol e, obviamente, português. Como eu não tinha nenhuma intenção de ser secretária, não dei a devida importância ao estudo da datilografia e, de castigo, continuo até hoje catando letras como se fossem grãos de milho.

Tentei convencer meus filhos a estudar datilografia, para que pudessem estar mais bem preparados para a vida. Riram de mim, pois não se fala mais datilografar e sim digitar. E mais, não estudam e digitam numa velocidade astronômica. O que só confirma minha tese sobre a evolução das espécies: diferente de nós, essa gurizada já veio de fábrica com um processador Core 2 Duo.

18 julho 2008

Da caixa de guardados

Crônica escrita por Liberato Vieira da Cunha e publicada no jornal "Zero Hora" do dia 18 de julho de 2008.

Há pessoas que colecionam amores, notas de cem, carimbos de passaporte. Eu há muito coleciono frases que gostaria de ter escrito.

Sobre a felicidade. "Felicidade é a certeza de que a nossa vida não está se passando inutilmente." (Erico Verissimo)

Sobre o passado. "É o futuro, usado." (Millôr Fernandes)

Sobre o futuro. "Tenho, às vezes, saudades do futuro." (Teixeira de Pascoaes)

Sobre a saudade. "Que me quereis, perpétuas saudades? Com que esperança ainda me enganais?" (Camões)

Sobre a paixão. "Nós só conhecemos as paixões dos outros, e o que chegamos a saber das nossas, é deles que pudemos saber." (Proust)

Sobre a sabedoria. "Deus conceda sabedoria aos que já a possuem e permita que os tolos se valham de seus talentos." (Shakespeare)

Sobre o tempo. "Perdido está todo o tempo que em amor não se gasta." (Tasso)

Sobre o amor. "Distante o meu amor, se me afigura / O amor como um patético tormento / Pensar nele é morrer de desventura / Não pensar é matar meu pensamento." (Vinícius de Moraes)

Sobre o pensamento. "Os pensamentos são tentações; são as que nos vêm de Deus; não propriamente que Deus nos mande; elas nascem da própria busca de Deus." (André Gide)

Sobre a solidão. "Nunca encontrei companhia mais sociável do que a solidão." (Thoreau)

Sobre a leitura. "Gosto de perder-me nas mentes de outras pessoas. Quando não estou caminhando, leio; não sei ficar sentado e pensar. Os livros pensam por mim." (Charles Lamb)

Sobre os livros. "Todos os livros se parecem por serem mais verdadeiros do que se tivessem acontecido realmente." (Hemingway)

Sobre a beleza. "A beleza é o acordo entre o sentido e a forma." (Ibsen)

Sobre a liberdade. "Liberdade, liberdade, / Abre as asas sobre nós." (Medeiros de Albuquerque).

17 julho 2008

Almoço no restaurante do Plazinha

Hoje, quinta-feira, dia 17 de junho de 2008, Helena, Simone e eu fomos almoçar no restaurante do Plaza Porto Alegre Hotel (Plazinha), aproveitando a vinda do Tesche à Porto Alegre. Foi uma pena que o Tesche não avisou sobre essa viagem com antecedência, pois teria sido legal se houvesse tempo para convidar outros colegas. Por coincidência, o hotel está completando 50 anos em 2008, assim como alguns de nós!
Como sempre foi legal conversar sobre assuntos que surgem nesses momentos de confraternização! Volto a convidar os colegas que vierem a Porto Alegre por quaisquer motivos que avisem antes, pois sempre podemos planejar algum encontro (almoço ou jantar) para colocarmos a conversa em dia!
Aproveito também para convidar a todos para o nosso "tradicional" almoço anual (pelo menos nos dois/três últimos anos) no Clube de Tênis de São Leopoldo. O local tem sido muito bom para almoços de confraternização, graças a localização, espaço e tranquilidade! Em princípio o encontro fica marcado para o dia 25 de outubro, último sábado do mês!
Abaixo estão as fotos tiradas hoje, no hall de entrada do restaurante!



05 julho 2008

Uma situação que vivemos em 1974!

Crônica escrita por Moacyr Scliar e publicada no caderno "Vida" do jornal Zero Hora do dia 5 de julho de 2008 (sábado)

Meningite e democracia

Há trinta e cinco anos, o RS e o Brasil começavam a viver um dos mais sombrios e mais instrutivos episódios da história recente da saúde pública em nosso país. Em 1973, tinha início uma epidemia de doença meningocócica, que chegaria ao auge em 1974, e se manifestaria em várias grandes cidades brasileiras, deixando a população em pânico. Estamos falando de uma doença causada por uma bactéria, o meningococo, que provoca uma inflamação nas meninges, membranas que envolvem o cérebro. Pode ocorrer infecção generalizada, levando em muitos casos ao óbito. O tratamento, que se baseia principalmente no uso de antibióticos, já estava obviamente disponível, mas ainda não existia, no Brasil, uma vacina suficientemente testada. Isso explica o alarme que a doença despertava. Claro, muitas outras doenças infecciosas eram então causa de óbito, como a diarréia infantil, que matava milhares de bebês todos os anos. Mas a diarréia infantil não era novidade e era, sobretudo, uma doença de pobre, ao passo que a meningite não respeitava barreiras sociais e acometia muitas crianças de classe média, um processo facilitado pela crescente urbanização do país.

O Brasil estava então sob regime autoritário. Ao constatar que a doença não estava sendo controlada, que informações alarmantes apareciam todo o dia na mídia e que muita gente chegava ao desespero, uma decisão extrema foi tomada: proibiu-se a divulgação de notícias sobre a epidemia. E com isso tivemos uma experiência digna de figurar nos manuais de saúde pública.

A idéia das autoridades é que, com a censura imposta à imprensa, a calma voltaria às famílias. Aconteceu justamente o contrário. A ausência de informação gerou os mais descontrolados boatos. Um deles dizia respeito à transmissão da enfermidade. A doença meningocócica não é contagiosa: durante as epidemias a maior parte das pessoas abriga o germe na garganta, sem disso ter sintomas. Em alguns casos o meningococo penetrará na corrente sangüínea e causará a meningite ou outros problemas. Como as pessoas não sabiam disso - porque não se podia falar a respeito - ninguém se aproximava dos doentes. Num colégio de Porto Alegre estava sendo velado o corpo de um aluno falecido de meningite. Ninguém sequer se aproximava do caixão, por medo do contágio.

Finalmente, com a introdução da vacina (e também porque as epidemias naturalmente declinam) o pânico foi desaparecendo.

Mas a lição ficou. A lição política, mostrando que a pior democracia é melhor do que a melhor ditadura, e a lição de saúde pública. "A verdade vos libertará", dizem os Evangelhos, e isto vale também para a doença. A verdade, nestes casos, nos liberta dos temores e nos sugere o caminho para que tomemos medidas úteis, não baseadas no pavor. Em época de epidemia já basta o sofrimento causado pela própria doença. Não precisamos acrescentar a este sofrimento a pesada carga dos temores.